terça-feira, 23 de maio de 2017

SEGURA A COISA!*

  
 O ‘Primeiro Grito pela República’ nas Américas foi dado pelo Sargento-Mor Bernardo Vieira de Melo, no dia 10 de novembro de 1710, em Olinda. – Proeza que o Hino de Pernambuco registra assim:

“A República é filha de Olinda,
Alva estrela que fulge e não finda
De esplender com seus raios de luz.
Liberdade! Um teu filho proclama!
Dos escravos o peito se inflama
Ante o Sol dessa terra da Cruz!”

 Ó linda situação para se construir a liberdade!

 Em 1975, antenada com o movimento mundial pró-legalização da maconha, a cidade de Olinda enfeitou suas ruas para a passagem do primeiro movimento explícito e organizado a favor da legalização da maconha no Brasil: o bloco carnavalesco Segura a Coisa. Cujo hino, alguns anos depois, seria composto por Miúcha:

“Segura a coisa
Que eu chego já
Eu não me seguro
Eu tenho que pular
Quero me perder
Quero me encontrar
Perto de você
Quando a loucura começar

O bumba batendo
Levantando fumaça
É o bloco cantando
Contente com a massa
Quero me perder
Quero me soltar
Perto de você
Quando a loucura me deixar”

Fundado pelo saudoso Negão Aldifas, Pii, Ângelo, Xirumba e tantas outras figuras dos arredores dos Quatro Cantos; direta ou indiretamente, teve um pouquinho de participação de toda Olinda.

Pasmem! Durante os primeiros anos, a fim de atender à demanda da erva, Bumba – famoso traficante – montava ponto onde se formavam imensas filas! Apesar disso e, logicamente, de inúmeros conflitos com a Polícia, o Bloco nunca deixou de sair.
 
Esse pioneirismo do Segura a Coisa, fica ainda mais espantoso ao lembrarmos que estávamos em plena ditadura militar. Naquele mesmo ano, o jornalista Vladimir Herzog seria "suicidado" nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo; e seis anos depois, viria a ocorrer o atentado do Riocentro, no Rio de Janeiro!

Vale ressaltar que a ideia de uma marcha internacional pela maconha só iria acontecer, na cidade de Nova York, em 1998. No Brasil, simplesmente denominada como ‘Marcha da Maconha’, chegou na cidade do Rio de Janeiro, em 2002. Contudo, só a partir de 2011, com o julgamento da ADPF 187 pelo Superior Tribunal Federal – STF, manifestações como essas ‘Marchas’ deixaram de ser consideradas como apologia às drogas ou ao crime.

De fato, além de não fazer apologia às drogas, o Segura a Coisa vai muito além de seus desfiles de Carnaval. Desde o início, sempre houve uma preocupação com sua responsabilidade social. Razão pela qual, incorporou à sua luta: o direito à educação, o direito à saúde, os direitos da mulher e, entre outros, o combate à homofobia.

Hoje, com blocos carnavalescos na defesa da maconha em quase todos os estados brasileiros, a exemplo de o ‘Planta na Mente’, que arrasta uma multidão no Rio de Janeiro; e o ‘BloCannabis’, que estreou com o pé direito em Brasília; sem sombra de dúvidas, podemos afirmar: o pioneirismo do Segura a Coisa vem fazendo escola.

Sob o comando de Okki Das Olinda, que diz: “Eles estavam errados. Há 42 anos nós já tínhamos razão!!!”, o Segura a coisa te espera às 23h59min da Quarta-Feira de Cinzas de 2018.

Nos vemos lá!






Negão Aldifas (Aldifas Santos - Integrante Imortal da Academia Olindense das Letras Etílicas e Herbíferas), o fundador do Segura a Coisa.


(*) Artigo publicado originalmente no # 10 da Revista Maconha Brasil.


terça-feira, 18 de abril de 2017

MUITO ALÉM DO CIDADÃO KANE*

              E A ENGANAÇÃO VAI MUITO ALÉM DAS DROGAS...
              Após os ataques às torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, com a população ainda assustada e temendo novos ataques terroristas, o presidente Bush teve todo apoio da mídia (e da população) para invadir o Iraque, em 2003. Para isso, afirmou que o regime de Saddam Hussein estava produzindo armas químico-biológicas de destruição em massa, que poderiam ser repassadas aos terroristas da “Al Qaeda”, de Osama bin Laden. Assim, escudado nessa MENTIRA, à revelia da ONU, os Estados Unidos invadiram o Iraque. – Numa guerra “vendida” como se fosse um videogame, com tecnologia de precisão cirúrgica, que só atingiria alvos militares ou terroristas, destruíram boa parte de Bagdá e 70% de Fallujah. Inescrupulosamente, usaram armas químicas (fósforo branco); torturaram prisioneiros; e massacraram a população civil, deixando – dependendo da fonte – mais de 100.000 ou de 650.000 mortos! Enfim, enforcaram Saddam Hussein e deixaram o Iraque no caos. Ah, logicamente, sem encontrar as inexistentes armas!
              Sabe o que é pior? Os Estados Unidos, o Reino Unido – principal aliado da coalizão –, a ONU, a mídia... Todos sabiam que o Iraque não tinha arma química nenhuma!
              No “Youtube”, assista a “THE WAR YOU DON’T SEE” (A GUERRA QUE VOCÊ NÃO VÊ), filme documentário dirigido por                                        John Pilger, 2010 – www.youtube.com/watch?v=pskjzl2czKg. E veja como, pela mídia, somos enganados! 
              Se mesmo nos Estados Unidos, com a audiência dividida entre 5 grandes redes de TV aberta (ABC, CBS, NBC, Fox e The CW) e uma poderosa rede de notícias a cabo (CNN), a opinião pública é manipulada... Imagine no Brasil, principalmente nos anos 80 – sem internet –, onde apenas 5,4% da população comprava jornais, e uma única rede de TV detinha mais de 70% da audiência dos telespectadores! – Isso não significa dizer que a população era desinformada, mas que a televisão era quase o seu único meio de informação. – Sobre drogas... e sobre tudo!               
              Lembra de William Randolph Hearst, o magnata das comunicações da “Cruzada Contra a Maconha”, cuja vida inspirou Orson Welles na criação de CIDADÃO KANE? Agora, vamos lhe falar de “Beyond Citizen Kane” (MUITO ALÉM DO CIDADÃO KANE), filme documentário britânico, dirigido por Simon Hartog, 1993. Ele retrata a posição dominante da Rede Globo e a influência, as conexões políticas e o poder do seu fundador, Roberto Marinho, comparando-o a Charles Foster Kane, o personagem criado por Orson Welles para o filme Cidadão Kane, em 1941. Segundo o documentário, a Rede Globo manipula notícias para influenciar a opinião pública. Entre os casos relatados, chama a atenção a tentativa de fraudar a eleição de Brizola para governador do Rio de Janeiro, em 1982 e a armação do debate decisivo da eleição de 1989, que na prática elegeu Fernando Collor. – A Rede Globo fez de tudo para proibir a exibição desse filme. No exterior, foi exibido no “Channel 4”, de Londres. No Brasil, nunca foi exibido nas televisões ou nos cinemas, mas circulou “livremente” nos circuitos universitários. Atualmente, há várias versões disponíveis no “Youtube”. Assista-o! E veja como somos manipulados!
               Se a mídia sustenta a mentira de interesse de terceiros (grupos econômicos, governantes, políticos e autoridades de saúde e de segurança), imagine quando o principal interessado é ela própria: a Rede Globo, a Editora Abril... a Flapress!
              Em primeiro lugar, o verdadeiro nome do campeonato brasileiro de 1987 é Copa Brasil. O nome massificado pela mídia, Copa União, era apenas o apelido do módulo verde.
              Contudo, no Rio de Janeiro, no “Verão da Lata”, a mentira se alastrava mais do que a maconha do Solana Star...
              Apesar disso, segundo o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, de 11 de setembro de 1987, pág. 27, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Otávio Pinto Guimarães, anunciou o acordo com o Clube dos 13, no dia 03 de setembro de 1987. O campeonato teria uma primeira divisão com 32 clubes, divididos em dois módulos, mantendo os 16 indicados pelo Clube dos 13 em uma das chaves, com o cruzamento final entre os dois melhores dos dois módulos. Portanto, tudo foi definido oito dias antes do início do campeonato.
              Fato que, em sua monografia para conclusão do curso de Jornalismo (“1987: O ANO SEM CAMPEÃO”, São Paulo, 2012), Esther Morel descreveu assim:

              “Ou seja: o primeiro e único regulamento da Copa Brasil era legítimo e garantia a definição do vencedor pelo cruzamento entre os módulos, além da classificação para a Libertadores. O poder de decisão foi dado ao diretor vascaíno, mas o problema é que, depois, o C13 não concordou com o que foi acatado por ele na reunião com a CBF.Grifamos.

              E para dobrar os renitentes, só nos resta recorrer ao versículo 65 da Bíblia! Ops, página 65 da Bíblia do Flamengo, Luís Miguel Pereira, Almedina, 2010:

              “Em 1987, o Campeonato Brasileiro foi dividido em dois módulos, verde e amarelo. O Flamengo venceu o primeiro enquanto o Sport ganhou o segundo. O regulamento previa o cruzamento dos dois campeões para apurar quem ficava com o título brasileiro desse ano. Mas o Flamengo se recusou a defrontar o Sport, por considerar a vitória no módulo verde chegava para ser campeão. A CBF promoveu então um encontro Sport e Guarani – 1º e 2º do módulo amarelo – para apurar o vencedor. O Sport venceu e foi declarado oficialmente campeão brasileiro de 1987. (...)Grifamos.             

              No entanto, a Rede Globo e os demais jornalistas integrantes da Flapress vêm invertendo os fatos e perpetuando a mentira. Para isso, dizem que a CBF e o SPORT modificaram o regulamento com o campeonato em andamento. Quando, na verdade, ocorreu o contrário: foi o Flamengo, o Clube dos 13 e o Conselho Nacional de Desportos - CND, que quiseram modificá-lo. Mas, na votação dos clubes participantes, não obtiveram a imprescindível unanimidade.             
              Todavia, acreditando na força do Clube dos 13, da Rede Globo e da Coca-Cola – patrocinadora do módulo verde –, o Flamengo, prepotentemente, furtou-se ao cruzamento com os vencedores do módulo amarelo. PERDEU POR W.O.!
              Na partida final, o SPORT venceu o Guarani por 1x0, que, como no ano anterior, foi vice-campeão brasileiro de novo! Assim, conforme publicou também o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, em 08 de fevereiro de 1988, pág. 28, o SPORT foi o campeão brasileiro de 1987. Por isso, mordazmente, Euritônio Pereira nos pôs a cantar:

“ (...) Da luta veio a vitória
Contra a escória do futebol
Castores, Tubinos, Bragas
E outras pragas da mesma escol
No gramado venceu contra quem jogou
E nos Tribunais deu em quem fugiu
Saudemos com orgulho e destemor
SPORT, CAMPEÃO DO BRASIL! (...)”
  
              E para que, de uma vez por todas, essa história tivesse fim, no dia 08 de abril de 2014, com uma goleada de 4x1, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), cujo Acórdão foi publicado no dia 30 de setembro de 2014, a Justiça brasileira ratificou:

“O SPORT É O ÚNICO CAMPEÃO BRASILEIRO DE 1987!”

              Antes do seu decisivo voto em favor do SPORT, o Ministro SIDNEI BENETI fez questão de frisar:

              “Permita-se, por fim, ressaltar a importância social imensa do respeito à coisa julgada, produzida pelos julgamentos do Poder Judiciário, de modo que o exemplo, em setor de grande repercussão geral como o esporte, produz relevante efeito pedagógico para toda a sociedade.

              Recentemente, questionado sobre o porquê do lançamento da camisa Diego Souza 87, o presidente do SPORT, João Humberto Martorelli, respondeu:

              “Foi para nossa torcida. Agora, se a torcida do Flamengo ficar chateada, direito dela. É o que chamo de 'júris esperneantes', o direito de espernear.” 



1 - Estevam, capitão do SPORT, levantando a Taça de Bolinhas, 1988.
2 - Diego Souza, novo craque do SPORT, chegando ao Recife, 2014.
Fotos: 1 - Arquivo/DP/D.A Press; e 2 - Lucas Liausu
              

              E, como diria Chicó, personagem de Ariano “Felicidade é torcer pelo Sport” Suassuna: SÓ SEI QUE FOI ASSIM!

(*) Artigo publicado originalmente no posfácio de nosso livro 'Tá todo o mundo enganado!', editado pela Editora Babecco, em Olinda, 2014.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Conheça a história do Polígono da Maconha

Conheça a história do Polígono da Maconha





Em 1867, o escritor, cientista, explorador e capitão inglês sir Richard Francis Burton percorreu o Rio São Francisco de Minas Gerais até a sua foz, em Sergipe. E, nas suas margens, visando às valiosas fibras do cânhamo, identificou condições ideais para a plantação de Cannabis. Cerca de um século depois, curiosamente, nascia ali o Polígono da Maconha!
Os registros de plantações e do consumo social de maconha feitos pelo médico neurologista pernambucano Jarbas Pernambucano, nos anos 1930; e pelo sociólogo americano Donald Pierson, nos anos 1950; comprovam a antiga presença da maconha no Polígono formado por 13 cidades de Pernambuco e da Bahia, na região do Baixo e Submédio São Francisco.
O Polígono da Maconha inclui 13 cidades do sertão pernambucano e baiano. Ao norte, desponta outro polo produtor de cannabis no Maranhão e Pará.
O Polígono da Maconha inclui 13 cidades do sertão pernambucano e baiano. Ao norte, desponta outro polo produtor de cannabis no Maranhão e Pará.
No entanto, em 1946, a Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes (CNFE), criada em 1936 e regulamentada pelo Decreto-Lei nº 891/38, promoveu o Convênio Interestadual da Maconha, em Salvador. O relatório final aprovado, entre outras coisas, diz: destruição das plantações de maconha, limitada a sua produção para fins médicos ou industriais.
Apesar disso, nos anos 1970, a fim de atender uma crescente demanda, a região começou a fornecer maconha às principais capitais brasileiras. Razão pela qual, passou a ser chamada, pejorativamente, de Polígono da Maconha.
Nos anos 1990, consolidou-se como a principal fornecedora de maconha do Brasil, inclusive com as lendárias estirpes de sativas “Manga Rosa”, “Cabeça-de-nego” e “Cabrobó”.
Repressão
A partir daí, a repressão foi aumentando cada vez mais, culminando no final de 1999 na Operação Mandacaru, que utilizou 1.200 militares das Forças Armadas, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Bombeiros e Polícias Militares da Bahia e Pernambuco, ao custo de R$ 7.500.000,00.
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Ao final da Operação, o general Alberto Cardoso e outras autoridades governamentais se vangloriavam referindo-se à região como “antigo polígono” ou “ex-polígono da maconha”.
Todavia, em 2004, segundo o pesquisador Jorge Atílio Silva Iulianelli, o Ministério Público do Trabalho do Estado de Pernambuco estimava que a mão de obra utilizada no Polígono da Maconha era de 40 mil trabalhadores.
Diante disso, as operações da Polícia Federal foram intensificadas e muitos plantadores deslocaram-se para outros estados, principalmente para o Pará e o Maranhão. No Polígono, a fim de dificultar o acesso policial, passaram a cultivar nas áreas de Caatinga e nas ilhas do Rio São Francisco.
Segundo o sociólogo e professor Paulo Cesar Pontes Fraga, o Polígono da Maconha ainda atende cerca de 40% do mercado brasileiro.
Ilegal e com a Polícia Federal fazendo operações a cada três meses, a qualidade da maconha do Polígono fica muito longe do ideal. Mas sem sombra de dúvidas, é bem melhor do que a maconha prensada paraguaia, principal beneficiada pelo “sucesso” das caríssimas operações “enxuga gelo” da Polícia Federal!
*Por Ubirajara Ramos, auditor fiscal e autor do livro Tá todo o mundo enganado!
Artigo publicado originalmente por maryjuana.com.br, em 25 Jul 2016.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Reportagem sobre o nosso livro "Tá todo o mundo enganado!" no Bom Dia Mirante



Caros Internautas,


No dia 06 de outubro, o nosso livro Tá Todo O Mundo 
Enganado! - Sobre a Maconha e a Política de Guerra às Drogas Mundial foi lançado dentro da programação da 9ª FeliS - Feira do Livro de São Luís.

Na ocasião, concedemos uma entrevista ao repórter Werton Araújo, da TV Mirante, Rede Globo, São Luís, que foi exibida, no dia seguinte, no BOM DIA MIRANTE.

Vejam a reportagem no link abaixo.


O livro está à venda, com remessa para todo o Brasil, através da Livraria Virtual da Editora Babecco:

Abração!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

MACONHA, JARARACAS E MÁ-FÉ

Por: UBIRAJARA RAMOS*



Em 22/11/2014, a página Opinião ZH, do Grupo RBS, de Porto Alegre, publicou o artigo “MACONHA MEDICINAL: VAMOS RECEITAR JARARACAS?”, onde o psiquiatra Sérgio de Paula Ramos faz capcioso paralelo entre o canabidiol (CBD), derivado da maconha, com a bradicinina, encontrada no veneno de jararaca, usada como remédio para baixar a pressão arterial. Em 11/06/2015, requentada pelo psiquiatra Marcos Estevão S. Moura, no artigo “'POR QUE NÃO LIBERAR?”, publicado no Correio do Estado, de Campo Grande (MS), a polêmica comparação voltou à baila.

Defensores do retrógrado PLC 37/2013, do deputado federal Osmar Terra (PMDB/RS), que visa exacerbar, no Brasil, a fracassada Política de Guerra às Drogas Mundial, esses psiquiatras destilam mais veneno do que as jararacas de seus artigos. Senão, vejamos: no Brasil, segundo o artigo “Envenenamento Crotálico: epidemiologia, insuficiência renal aguda e outras manifestações clínicas”, publicado na Revista Eletrônica Pesquisa Médica, Vol. 2, nº 2, as Bothrops são responsáveis por 90,5% das picadas de cobras, à taxa de letalidade de 0,31%, com as notificações de 2005 contabilizando 185 MORTES; enquanto a maconha, em 10.000 anos, nunca matou ninguém!

Quanto à segurança da droga, não custa lembrar: overdose de água mata. Maconha, não!

No entanto, ao que parece, os citados psiquiatras não foram buscar inspiração na ciência, mas no fantasioso e aterrorizador artigo “Maconha – Assassina da Juventude”, escrito por Harry Jacob Anslinger, em sua CRUZADA CONTRA A MACONHA, em 1937: “O assassino foi um narcótico conhecido na América como maconha, e na História como haxixe. É um narcótico utilizado sob a forma de cigarros, relativamente novo para os Estados Unidos e tão perigoso quanto uma cascavel enrolada.” Apenas trocaram a cobra: sai cascavel; entra jararaca!

Por outro lado, o tratamento com MACONHA que vem sendo aplicado COM SUCESSO em crianças com raros casos de epilepsia infantil – onde todo o arsenal médico disponível fracassou –, segundo o “PROVINCIAL MEDICAL JOURNAL”, de Londres, já era utilizado pelo Dr. O’Shaughnessy, em 1843. Portanto, a referida comparação não passa de um embuste embasado em preconceito e ignorância, ou pior: em escusos interesses econômicos, uma vez que estamos diante de uma “novidade” conhecida pela Medicina há 172 anos!

No caso, vem a calhar as palavras do Dr. Elisaldo Carlini, farmacologista da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), estudioso do assunto há mais de 50 anos, na Conferência da 58ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC): “Pura burocracia, preconceito e desinformação. (...) Não há mais empecilhos científicos para que a maconha seja liberada para fins de pesquisas e uso medicinal, mas há sempre a barreira social e política. As restrições que existem são mais de cunho ideológico e moralista e partem de pessoas que simplesmente não querem aceitar que a maconha não é a erva do diabo.”

Então, baseado nisso, vamos liberar e receitar a maconha!

______________
* Pesquisador independente, é autor de TÁ TODO O MUNDO ENGANADO! – Sobre a Maconha e a Política de Guerra às Drogas Mundial. Olinda (PE): Editora Babecco, 2014.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Além da vergonha, quanto custa um cigarro de maconha? [1]


Por: Gerivaldo Neiva *

 Aceitei calmamente ser revistada e o único pedido é que isto fosse feito por uma policial militar. Não gostaria que um soldado me apalpasse e nem que tocasse meu corpo. Tinha certeza que o cigarro de maconha seria encontrado naquela revista, mas pelo menos não seria tocada por mãos que não queria.
Era carnaval de 2014 em Salvador. O destino era o circuito Barra-Ondina e a galera havia marcado para se encontrar perto das “gordinhas”, no início da Avenida Ademar de Barros, e daí seguiríamos no sentido Farol da Barra, fazendo o contra fluxo para aproveitar um pouco de cada Trio Elétrico. Hoje era dia de “pipoca”. Nada de corda de blocos. Era dia de dançar e beijar muito.
Tinha saído do interior para Salvador de buzú com a galera para curtir o carnaval de Salvador. Como é bom ter mais de 18 anos e viajar sozinha. Ficamos todos os hospedados no apartamento de um brother que estava sozinho em casa, pois os pais não gostavam da fuzarca do carnaval e tinham viajado para a casa de praia no litoral norte. Massa! Um apê liberado, cerveja na geladeira, comida congelada no freezer, ninguém para controlar a hora de chegar ou sair. O paraíso é aqui e agora.
Há meses não “ficava” com ninguém, mas no carnaval isso é impossível não acontecer. Ao entardecer, um amigo do brother do apê “chegou junto” e rolaram uns bons amassos e beijos molhados na varanda. Faz parte do carnaval. Ao sair para a festa, percebi que aquele papel que ele tinha deixado no bolso do meu short era um cigarro de maconha. Massa. Não estava contando com essa possibilidade, mas já que caiu em meu bolso, seria devidamente aproveitado. Primeiro o carnaval, muitas latinhas de cerveja, depois um baseado, a larica, um sanduíche do tamanho do mundo e o sono perfeito.
Não havia razão alguma para aquela revista. Não me envolvi em confusão e andávamos normalmente pela rua quando a guarnição da PM resolveu revistar a galera. Não tinha como evitar. Correr seria pior. Quando a policial militar passou a mão no bolso do short percebeu logo, pelo formato, que se tratava de um cigarro de maconha. Seus olhos brilharam como se tivesse encontrado um troféu. Para livrar a barra de todos, o melhor era confessar que era para consumo pessoal e que os demais nem sabiam da existência daquele cigarro.
Fui convidada para ir ao posto policial mais próximo, não fui algemada e apenas a policial feminina pôs a mão em meu ombro. Ao meu lado, um policial militar franzino e de óculos me dava conselhos durante o trajeto até o posto policial: - maconha é perigosa e vai te causar mal, maconha é a porta de entrada para outras drogas, maconha vai causar estragos irreversíveis em teu cérebro e pode até te enlouquecer, o consumo alimenta o tráfico e causa a morte de outros jovens. Ouvi tudo calada, mas esta última observação quase me tirou do sério. Ora, o cara estava querendo me culpar pelas mortes causadas pelo tráfico!! Quem está apertando o gatilho e sob ordens de quem?
No posto policial, fui mais uma vez aconselhada sobre o perigo da maconha pela pessoa que me tomou o depoimento e, meio a contra gosto, terminei assinando um documento me comprometendo a comparecer perante um juiz de direito quando fosse intimada. Que chatice. Tudo isso por conta de um cigarro de maconha! Se soubesse, não teria dado bola para o carinha e, sem os amassos na escada, não teria rolado o baseado.
Estamos em novembro e só agora recebi a intimação para comparecer perante o juiz de direito e ouvir uma proposta de transação penal pela promotora de justiça. Soube na audiência que se tratava de uma carta precatória que teria sido enviada pelo Juizado Especial Criminal de Salvador para o fórum local. Indaguei mais sobre o caso e o juiz me disse, com dificuldades para me explicar a burocracia da justiça, que a apreensão do cigarro de maconha tinha gerado um Termo de Ocorrência e encaminhado para o Juizado Especial Criminal. Daí, o processo teria sido encaminhado para um promotor de justiça e este teria requerido ao juiz de Salvador que fosse enviada uma carta precatória para que fosse proposta uma transação penal pela promotora da cidade. Além disso, meu indefeso cigarro de maconha, pesando 1 grama, ainda foi encaminhado à polícia técnica para constatar que se tratava mesmo de maconha, ou seja, cannabis sativa. Pobrezinho...
A promotora de justiça me ofereceu as opções de prestação de serviço à comunidade ou converter em pagamento de multa. Evidente que não iria me submeter ao vexame de prestar serviço à comunidade por ter sido flagrada com um cigarro de maconha. Apresentei algumas desculpas para não prestar serviço à comunidade e a Promotora ofereceu a proposta de converter no pagamento de 200 reais em duas parcelas, que seriam destinadas a entidades filantrópicas da cidade. Melhor assim. Vou retirar de minha mesada e pagar duas parcelas de 100 reais. Caso não aceitasse, pelo que entendi, seria condenada por portar maconha para consumo pessoal, mas não iria para a cadeia. As penas seriam de advertência sobre os efeitos das drogas ou comparecimento a programa ou curso educativo.[2] Que coisa mais absurda e fora de moda!
No mesmo dia, ao fundo do salão em que se realizavam as audiências, havia dois rapazes algemados à espera de serem interrogados. Eram negros, tinham a cabeça raspada e usavam um uniforme azul, calças folgadas com elástico e uma camisa tipo bata. Não sei que crime cometeram e o que iria acontecer com eles, mas sei que minha cabeça saiu muito embaralhada e intrigada daquele lugar: por que preciso pagar 200 reais por ter comigo, para meu consumo, um baseado de maconha? Por que esses jovens estão presos e algemados? Por que não vivemos todos com paz e dignidade? Por que tanta violência e criminalidade?
Vou precisar fazer alguma economia para pagar a multa, mas imagino que a justiça gastou muito mais do que isso para resolver este caso. Além da polícia que me revistou e me conduziu para o posto policial, teve o pessoal que me tomou o depoimento e, pelo que entendi, o caso virou um processo na justiça e movimentou uma máquina enorme: funcionários, sistema de informática, papéis, perito, laboratório, promotor de justiça, juiz de direito, correio, mais funcionários, outro promotor, outro juiz de direito, o oficial de justiça que foi me intimar, esta audiência... Será por quanto ficou o preço final desse processo? Além da minha vergonha, quanto custa um cigarro de maconha para a justiça?
O Juiz me disse, na despedida, visivelmente constrangido em cumprir aquela tal de carta precatória, que tivesse cuidado ao usar maconha ou sair com cigarro no bolso. Não me recriminou e seu olhar era mais de cuidado e proteção. De minha parte, por mais que tivesse sido constrangedor tudo aquilo, continuo entendendo que não cometi crime algum, que não sou uma “pobre viciada” e apenas gosto de fumar maconha na companhia dos amigos em situações muito especiais e, finalmente, que não sou culpada pelas prisões e mortes causadas pela proibição e pela guerra às drogas.

* Juiz de Direito (Ba), membro da Associação Juízes para a Democracia (AJD), membro da Comissão de Direitos Humanos da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e Porta-Voz no Brasil do movimento Law Enforcement Against Prohibition (Leap-Brasil)

_______________________
   
[1] É real o fato da apreensão, da Carta Precatória e da realização da audiência. O resto é ficção.
[2] Lei 11.343/06
Art. 28.  Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.

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Artigo postado originalmente em 21/11/2014, no link abaixo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

RAS GERALDINHO E A HIPÓCRITA GUERRA ÀS DROGAS


Assim caminha a DESUMANIDADE...

Ras geraldinho funda uma IGREJA. Acusado por TRÁFICO, pega 14 anos!!!

O HSBC, como tantos outros bancos, LAVA PORRILHÕES DE BILHÕES DE DÓLARES DO TRÁFICO. Pede desculpa, faz um acordo (Estados Unidos), paga uma multa de U$ 1,9 BI e vai embora... Ninguém vai preso!!!

Enquanto isso, em qualquer favela ou comunidade pobre, "negrinho" com 2 baseados ou 2 pedras de crack, VIRA PERIGOSO TRAFICANTE!

E a sociedade enganada e apavorada com o SENSACIONALISMO BARATO DA MÍDIA, acredita, apoia e aplaude esta HIPÓCRITA e NEFASTA GUERRA ÀS DROGAS!